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Uma conversa que não precisava de ser ganha

  • Foto do escritor: Impact+
    Impact+
  • há 15 minutos
  • 3 min de leitura

No último Leadership Circle da Comunidade Impact+ partimos de dois textos, um de Hannah Arendt, outro de George Orwell, para falar sobre o valor da verdade no discurso político. Não houve vencedores. Era esse o objetivo.


Grupo conversa em sessão do WEF

Um formato que não serve para convencer ninguém


O Leadership Circle é o espaço de conversa da Comunidade Impact+. O formato é inspirado no modelo do Aspen Institute e tem uma estrutura simples: um grupo reduzido, textos lidos previamente por todos, um facilitador e uma regra que muda tudo: não se vem defender uma posição, vem-se testar a nossa.


Isto não é um detalhe de formato. É uma escolha deliberada. A maior parte das conversas em que participamos profissionalmente tem um objetivo instrumental: alinhar uma posição, preparar um argumento, fechar uma decisão, convencer alguém. São conversas necessárias. Mas têm um efeito secundário conhecido: com o tempo, deixamos de examinar os nossos próprios pressupostos, porque nunca há tempo e porque nunca há incentivo para o fazer.


Um espaço onde ninguém tem de ganhar é raro precisamente porque é improdutivo no sentido imediato do termo. Não produz uma posição comum, nem um comunicado, nem uma decisão. Produz outra coisa: pessoas que saem a compreender melhor a estrutura do desacordo em que estão.


Pessoas em videochamada a discutir o valor da verdade no discurso político.

Porque escolhemos a verdade como tema


Arendt e Orwell escreveram, em contextos diferentes e com preocupações diferentes, sobre o mesmo fenómeno: o que acontece a uma comunidade política quando a relação entre linguagem e realidade se parte.


Falámos sobre a vulnerabilidade da verdade e sobre a forma como ela é manipulada. Sobre como o enquadramento, a escolha de palavras e a repetição constroem versões da realidade, moldam a memória coletiva e normalizam aquilo que, pouco tempo antes, teríamos considerado inaceitável. Falámos de confiança, de ciência, de dados, de subjetividade e de bússola moral. Da tensão entre a expressão “a minha verdade” e a ideia de uma realidade partilhada. E do risco de esvaziarmos a verdade sempre que ela deixa de corresponder à narrativa que queremos sustentar.


As perguntas que ficaram por fechar


—  O que é, afinal, a verdade?

—  E se aquilo que entendemos como verdade tiver sido moldado pelas narrativas que querem que aceitemos?

—  Como podemos tomar decisões informadas quando nem sempre temos ferramentas para distinguir factos, perceções e manipulação?

—  Que responsabilidade coletiva temos na defesa da verdade?

 

Nenhuma destas perguntas foi respondida. Isso não é uma falha do formato. É a função do formato.


Porque é que isto interessa a quem faz advocacy


Aqui está o ponto que torna a conversa mais do que um exercício intelectual.

Quem trabalha em influência pública trabalha, todos os dias, com exatamente as ferramentas que estavam em discussão: enquadramento, repetição, seleção de dados, construção de narrativa. São instrumentos legítimos e são competências que ensinamos. A diferença entre advocacy e propaganda não está nas ferramentas. Está na relação que mantemos com a realidade quando ela nos é inconveniente.


Uma organização que apresenta apenas os dados que confirmam a sua posição, que transforma uma estimativa numa certeza, ou que descreve um adversário de uma forma que sabe ser injusta, está a usar o mesmo mecanismo que denuncia quando é usado contra si. A curto prazo, funciona. A médio prazo, corrói a única coisa que uma organização da sociedade civil tem e que o poder económico não consegue comprar: credibilidade acumulada.


Há ainda um segundo motivo, mais prático. Quem passa anos a defender publicamente uma posição perde progressivamente a capacidade de a examinar. É um custo profissional real: a mesma disciplina que torna alguém eficaz numa campanha torna-o pior a avaliar se a campanha está a resultar. Espaços de conversa sem vencedores existem para compensar esse desvio.


Numa altura em que tantas conversas públicas são reduzidas a confronto, simplificação e certezas absolutas, parar para pensar em conjunto é também um ato de liderança.


O próximo Leadership Circle


A conversa continua no Leadership Circle de setembro. Se és membro da Comunidade Impact+ e perdeste o último, ainda vais a tempo do próximo.


A Comunidade Impact+ é um espaço reservado a pessoas e organizações que trabalham em advocacy em Portugal, com acesso a conhecimento, oportunidades e uma rede focada em influência real. A entrada é exclusiva para Alumni Impact+. Se ainda não fazes parte, podes registar interesse em impact-mais.com/comunidade e serás notificado quando abrirmos o espaço ao público.


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